Duas vezes tive muito medo de perdê-la. Quando se passaram os nove meses e quando percebi sua própria personalidade formada. Foi quando descobrimos conflitos entre mim e você, entre mim e minha pocessividade. Eu tive que entrega-la ao mundo, querida, e foi o que me pesou o coração. A fiz, mas não fui eu quem a pari. Arrancaram você de mim, mas eu gritei por ter que apresenta-la ao mundo e por querê-la mais dentro, tão protegida, que junto a mim. Eduquei com todos os meus hábitos e civilizei você com a moralidade qual achei melhor. Hoje você escolhe os seus costumes, mesmo assim não esquece a tradição. Escolhi a melhor escola, merenda saudável e o seu colchão, mas depois que o tempo passou não pude escolher o seu namorado, nem manter você distante daqueles amigos. Eu sei quem são o mundo e os homens, sei que juntos, eles moerão seus sonhos e alegrias. Com todo o meu desespero, apavorada, tive que deixa-la sofrer para depois ouvi-la dizer que se machucou. Não sofreu você sozinha, estou cheia de marcas suas. Orgulho-me dos seus olhos serem parecidos com os meus, mas vejo neles o caráter que pode ser construído e reformado durante toda a vida, a cada vez que com ela se aprende uma coisa mais. São lindos, negros e verdadeiros, como pedi a Deus. Poderia sentir toda a dor novamente para torna-la para aquele lugar quentinho dentro de mim. Porem você está carregada do meu calor, seu sorriso mostra o peso do amor que lhe consegui entregar. Mãe é a melhor forma de eternidade apresentada ao homem. Quando você caía, eu cuidava seus ferimentos, entretanto não consigo arrumar a bagunça que você faz dentro de si. Se você me ouvisse quando mandava você arrumar o guarda-roupa teria você mesma conseguido pratica. Seu pai e eu, gostaríamos de conseguir mostrar o livro que as estrelas escreveram no céu sobre as inúmeras vezes que pedimos você à elas, mas sempre que observa-lo, lembre-se que ele brilha você, admire-se, é a historia que pedimos. Escrita com muita luz. E brilhe sempre, amorzinho, não deixe que ofusquem sua magnitude com sentimentos porcos. Sujeira não! Mamãe lhe ensinou. Eu costumava fazer planos para você e fico tão feliz que você desfez todos. Me orgulha muito ver você seguir seu coração e pegar a estrada certa na vida, ouça sempre sua poesia cantando sua pulsação como oração. Um viva à vida, filhinha! Viva você que é a minha! Quando vejo a cicatrize do corte no final do abdômen, ainda sinto saudade de você me chutando e socando aqui dentro, mas agora os socos são da realidade, nela você é uma mulher. Uma mulher-maravilha que não precisou de mim para ser um sucesso, mas me incluiu nele. Você deu certo, a historinha escrita nos céus é tão inebriante aqui na terra.
Um amor que é eterno, um laço que nunca é desfeito, filhinha. Que linda mulher eu fiz!
Sua mãe.
(Ravena Lamêgo)
Acordei-me para viver às sete horas da manhã com o despertador me apresentando o dia, entretanto me esqueci em você quando resolvi anotar na agenda o caminho até seu corpo, pra eu nunca se perder. Esse nosso amor que é tão devasso e calminho, sem pretensões de eternidade e tão efusivo… Recorro-te para ser feliz e te vejo como um recurso para aprender viver.
Tem que ter educação pra amar, não pode ferir ninguém. Mas quê se pode fazer se quando o amor é bonito as pessoas querem também? Só lembre-me de amar você até o fim desse mundão, até que ele saiba morrer. É segredinho, tem que amar baixinho e sonhar bem no céu, que é pra aturar as crises e ser alto e livre, como as andorinhas. Moro em você, morro em você, more em mim, sem intenção de mudar. Sou um bichinho amando, um poeta cantando, e você é meu ar. Um cômodo pequenininho, pra caber nossa cama e um ninho, pra chamar você de lindo. Você que é só meu, você que é meu ciúme; Vê se entende! Você sou eu e não me some.
Aposto em nós que todo dia o amor verdadeiro renasce. Coraçãozinho apertado, só cabe acolher você.
(Ravena Lamêgo)
Olga sorria do sol que brilhava no vidro da porta, invadia o quarto e esquentava seu corpo desanimado. No outro dia teria de empresta-lo, mesmo exausto, ao seu trabalho. Ainda sendo quem era, no escritório precisavam da sua energia, sua alegria e sua animação. Coisas que só explanava lá. Desenvolvia suas habilidades em muitas áreas, escrever, cantar, pintar, mas principalmente, se treinava para ser feliz um dia. Talvez isso fosse bom, quem sabe poderia ser triste demais. Mas que poderia fazer se Olga entendia que esse seria o destino que deus lhe reservara? Deus fora alguém muito mal com Olga na sua infância. Reservou-lhe um homem desgraçado para molesta-la, pais que não se amavam e um avô maravilhoso, que de tão bom e amável, morreu quando ainda era uma menina indefesa. Escrevera até ali sua historia a lápis e canetas com tintas de sangue, tudo em uma folha escura e desdenhosa.
Invariavelmente, meio dia, largava-se na poltrona da sala que dava para a rua, e lamentava-se de si. Neste dia, a poeira subia do chão de pedras na rua e alcançava altura de dois metros. As crianças pulavam e corriam entre ela, sem repara-la. Entretanto o que chamava a atenção de Olga eram os rostos desconhecidos que passavam, devagar ou à toda velocidade. Imaginara se cada um deles deus marcara com a mesma mancha de terror que a concedeu. Quando as crianças percebiam a mulher, a enxergava com livros e dores entre as mãos. Se o tempo estava aberto, libertavam a angustia marcando suas faces ingênuas e doces com lagrimas cinza, terminando por limpar seus pequenos rostos empoeirados.
Adorava crianças, mas todas as vezes que uma tentou se aproximar a recusa foi instantânea. Lembrou-se de quando uma colega de trabalho pediu-lhe que ficasse trinta minutos com sua filha, e antes que se completassem dez minutos no relógio, atacada pelas lembranças, Olga trancou-se no banheiro e rasgou o pulso com a caneta. Os minutos que restaram foram usados para estancar o sangue e esconder a ferida. Saindo do banheiro, a mulher acabava de entrar na sua sala. Obrigada querida. Deus a abençoe! Vamos, Aninha. Olga manteve-se parada olhando as duas atravessarem a avenida. A criança loura com uma fita vermelha dada em laço frouxo, quase caindo da cabeça. Para cada passo que ganhava, uma lagrima corria dos olhos ao fim do pescoço, regularmente. O vento contrario ao caminho que seguia arrancou a fita e a levou dançante, enquanto Ana olhava para trás. Amava Olga de longe, sem conhecê-la.
O olhar, a fita e a cicatriz no pulso, gravaram o acontecido em Olga. Brutalmente. Quando, enfraquecida, Olga conseguiu exortar os demônios e suas lembranças, o céu já estava escuro e a noite apavorava.
Havia um pormenor que jamais poderia ser esquecido sobre Olga e suas deficiências: Cheia de lembranças ruins, Olga guardava o melhor de si em um invólucro que até aquele momento jamais fora descoberto por alguém. E se fosse para compara-la a algo, seria com a lua. Bela, esburacada, negra e só.
(Ravena Lamêgo)
A pele tão macia, cheirando a sabonete, trouxe o meu corpo para perto e depois para cima dele. O preto dos olhos impressionava. As duas bolas enormes e penetrantes olhavam-me agitadas e nervosas, enquanto beijava-me nos peitos. Eram beijos molhados, urgentes, cheios de sabores. Os movimentos rítmicos dos nossos corpos eram tão involuntários quanto as minhas pernas tremendo, quanto o som da sua boca chupando o bico de um dos meus peitos, quanto as suas mãos amassando e pressionando o outro peito que restara.
Em pouco tempo, o quarto foi tomado de gritos e gemidos descontrolados e animais. Com minhas unhas o arranhei inteiro e ele grunhia. Senti seu membro terrivelmente duro roçar entre as minhas pernas, causando um prazer angustiante e voraz. Estávamos perdidos e sedentos de coisas que não sabíamos quais eram, mas que se desenvolviam sem autorizações. Apenas usava-nos.
Enquanto suas mãos e boca despertava em mim uma mulher que nunca fui, eu ordenava-lhe que fosse mais forte. O homem obedecia. Éramos cada vez mais loucos e rápidos. Nesse momento já havíamo-nos libertamos de qualquer pensamento. Esvaziamos a caixa cheia de problemas e confusões que se tornaram as nossas cabeças, e nos tomamos até a ultima gota que podíamos ser bebidos.
Com a minha boca mordi a sua carne cheirosa, esquentei seu membro e engoli todo o seu prazer. Enlouquecidos, chegamos ao ápice do amor, juntos. O sentia no meu corpo e na minha alma.
Ele estava em cima e dentro de mim. Enchendo-me, completando-me os vazios. Éramos um. Sem questionamentos. Meu cérebro não funcionara bem. Fora uma noite de amor e prazer que quase rompeu com a minha sanidade.
No negrume do quarto enorme, estavam dois corpos imunes de razão, movendo-se freneticamente e contorcendo-se do delírio que os consumia. Um sobre o outro, não como mortos no Haiti, mas era como se se fundissem ali dois corpos, gerando ou tornando somente uma pessoa.
(Ravena Lamêgo)
Anjo dourado,
Escrevo-te para sabê-lo como andas e por onde. Desde a ultima noite que estivemos juntos, não me sai da cabeça o seu corpo bronzeado e a boca quente. Faz muito frio por cá e tenho ansiado sem descanso encontra-lo. Cheguei a sonha-lo ao meu lado e acordei aos prantos por tê-lo tão apaixonado e distante. Confessado esteja com minhas letras gordas que o tenho entregado enorme adoração. O amo em todos os cantos, de todas as formas. Encontrei em ti um pai e uma mãe, cuidadosos e ciumentos, também outra irmã birrenta.
Na ultima carta tu me querias saber que tenho feito da vida, pois então:
No domingo, me vi sobre seu corpo fazendo movimentos sensuais,e tu adoravas. Beijava-me com urgência e eu sentia seu corpo arder. Quando revi a realidade, estava ao lado de duas beatas que fofocavam na igreja. Perdoe-me O Senhor por isso, mas o reverendo diversas vezes que me olhava parecia condenar-me ao lado ardente. E que aflição me bateu! Nesta noite foi um caos. Ele olhava-me profundamente, parecendo tocar a minha alma, dizia “Arderás no lago de fogo” e eu tremia. Chega a ser inconveniente meus pensamentos, mas não os compreendo como pecado. Decidi que devia respondê-lo a altura, mon amour, e retribui um olhar faiscante de ódio, caso se ele o pudesse ver de perto perceberia por trás da minha retina o medo consumidor. Porem de onde estava meus olhos podia dizê-lo que não era pecado amar-te e que sou muito mais feliz junto a ti. Ousei grita-lo, mandei que fosse ao inferno. “E me largue em paz seu fanático de merda”. Pois foi nessa hora que eu percebi ao meu redor todos olharem-me e praguejarem coisas sem sentido. De imediato entendi que falara e fizera tudo em alta voz.
No outro dia eu resmungava com Alfredo sobre o tempo e o Estado, e ele mesmo contou-me que, estando com Joana, esta o confessou entrega-lo paixão secreta. Precisas de ver como agora andam à todo lado agarrados. Faz gosto de olhar! Ela cai sobre seu colo, sem preocupar onde estão, e ele mexe-lhe os cabelos, ampara-lhe os cachos revoltos, e fazem até massagem. Deus conserve-os nessa paz e que nos guarde sempre amigos. Convidaremos os dois para nos apadrinhar. Assistiremos à felicidade uns dos outros, sem invejar.
No mais, apenas a saudade aparece-me e perturba minha vida e sono.
Aquela noite que estive contigo, mon amour, na praça J., se lembra? Foi o principio ali. Estarmos onde nossas cabeças pareciam separadas por poucos centímetros do céu, foi como sentir Deus abençoando nosso amor. As estrelas refletidas nos meus óculos e as luzes da cidade abaixo de nós, excitando a ideia de que nada é maior que nós dois juntos me apareceu todos os dias dessa semana. Tu que estavas tão triste e infeliz, ria de mim, sorria dos desencontros de quando não éramos conhecidos do outro.
A vida cá, anda um sufoco só, separada de ti, mon amour. Apressa-te em me ver, já não me aguento tão só.
Marisa.
(Ravena Lamêgo)
Em um esforço sobre-humano arrastava-se ao trabalho e a sua rotina maçante. Obrigava-se a viver. Mas não conseguia forças para tanto. Sentia e ouvia os olhos dele em todos os cantos, até na recepção horrível onde passava parte do seu dia. Ele não estava ali, mas o podia sentir presente, perseguindo-a por toda parte. Sentia horríveis dores na cabeça e no estomago. Por isso procurava se manter sempre alimentada. Mesmo assim a sua aparência era de morte e dor. Tudo em sua vida era desanimo e saudade.
Todas as suas obrigações irritavam-na e em seu rosto o cansaço era claro. Desde a depressão sentia o gosto amargo da bílis todas as vezes que sentia a solidão carrega-la em lugares cheios de gente, e teve que aprender a segura-lo na boca, para não vomitar nas pessoas. Mas tudo isso incomodava. Na verdade, ela própria era o seu incomodo. Não tinha paciência para a vida. Como se em pouco tempo um demônio lhe sugara a beleza e alegria.
Quando não estava trabalhando, lia. Ou trancava-se no quarto e agonizava as dores encolhida na cama. O quarto era um cubículo amarelo e cheio de infiltrações. A mobília consistia de cama, escrivaninha e uma cadeira velha. Com um braço agarrava o travesseiro e com o outro o pouco desejo em viver. Às vezes era preciso erguer-se da cama e sacolejar-se para se sentir viva e conseguir respirar bem. Mas as dores na cabeça não passavam.
Só depois de muito tempo, descobriu um rapaz que inexplicavelmente era o único que a fazia esquecer-se dos olhos que a perseguia. Junta a ele, ela sentia o corpo começar tremores incessantes de desejo e as mãos soarem com a falta de ar para dois. Um dia sentados na frente da casa dele, conversaram sobre politica. Eram anarquistas, ou nada disso. Os dois se entendiam e se respondiam claramente com o olhar. No espaço de um mês, os dois passaram de amigos à amantes e dali a eternos.
O demônio desaparecera.
(Ravena Lamêgo)
Sempre a noite Marisa vivia uma espécie de déjà vu diabólico. Revivia momentos com Pedro. Com os olhos fechados o via chegar com expressão cheia de amor na face, e o podia sentir apalpar seu corpo. Seus seios dilatavam-se e cresciam junto com a impressão que seu membro duro encostara-se à sua virilha. Marisa disparava gemidos e sons ininteligentes quando sentia a sua voz embargada e firme aproximando-se do seu ouvido, ele mandava que ela se movimentasse mais rapidamente com um som animal. Ela o fazia desesperadamente, como se esteve nele.
E estava. Pedro era parte dela e jamais o conseguiria arrancar de si. Já conseguira provas suficientes disso.
Essa era a nova vida da mulher. Ser violentada pelas lembranças, todos os dias. Podia ver a saudade sugar a gordura do seu corpo tanto quanto subtraia-lhe a vida. Cada minuto que perdia sentia-se anos mais velha.
O tempo fora descoberto com valor enorme no dia do seu aniversario. Foi um desespero. Chorou o resto da vida depois que acordou e deu com o reflexo de uma mulher com têmporas e vestígios de morte no espelho do banheiro. De morte porque o tempo distante do homem doía-lhe, e já não o vivia.
Uma triste e maravilhosa historia de amor, que teria tudo para que fosse brilhante, caso existisse a paz. A imagem marcante do rosto de Pedro era viva, e às vezes confundia-se com o sol que clareava o quarto e o cotidiano de Marisa. À noite podia ser como uma brisa fúnebre, que marca o fim de mais um dia distante do homem que se ama. Até com os olhos abertos o podia ver perfeita e delicadamente.
E por mais doída que as chagas fossem em Cristo, todos a amavam, porque elas eram a própria expiação do pecado. As lembranças doíam-lhe, mas adorava tê-las. Era a expiação da própria ausência.
Mesmo depois de muito tempo, todos os dias tentava recomeçar. Mas o esperava todas as vezes que ouvia musica e quando não ouvia nada. Marisa continuava amando-o porquê ele não mudara. Ainda existia e ainda era Pedro, o seu Pedro. Entretanto eram estranhos.
(Ravena Lamêgo)
No tempo em que éramos duas crianças, Marisa era uma menina gorda e chata. Odiava seus próprios olhos por serem graúdos demais. Anos depois, quando um namorado disse-lhe que eram as primícias da sua beleza, passou a bendizê-los como sendo seu único tesouro. Repetiu-se a historia com os peitos.
Marisa cresceu em uma cidade pequena, dividindo a pacata Ilha dos prazeres e a capital. À medida que se tornava mulher sua beleza e sensualismo se tornavam maiores e evidentes, despertando os desejos sexuais mais vulgares em homens e mulheres. Mas em si, Marisa sustentava explosões diárias de alegria e dor por conta das paixonites semanais.
Viveu em uma casa de boêmios, com pessoas da noite e amantes declarados da musica popular. Influenciada, criou gosto por violas, mas nunca aprendeu a fazer nelas um som agradável. Os pais desconheciam e não mostravam muito interesse na poesia, nela escrita, mas a cantavam sem perceberem-na.
Conhecendo um rapaz, poeta, apaixonou-se perdidamente. Por ele e pelos versos. Achava-o o melhor, porem não conhecia outros que escrevessem. Com ele aprendeu a amar e depois dele conheceu muitas novidades na cama. Quando o prazo do namoro venceu-se, sofrendo, descobriu um amor pela poesia. Tornou-se culta e desenvolveu uma historia de amor com as palavras. Devo dizer que as dominava e com enorme sutileza.
Marisa amou, de forma que realmente morresse para si, aos dezenove. Era um rapaz galante e esbelto, mas era um sacana. Mais que os outros. Foi quando atentou-se para a dor que era a vida de um poeta e sua alma doente, que por certo, nela adormecia, mas sempre lhe doeu. Por este rapaz, sentia-se puta. Poderia aceitar facilmente ser amante, se ele a quisesse. Isso parecia fazê-la infeliz, mas teria a felicidade de desfruta-lo de alguma forma. Por amá-lo tanto e de forma que muito se doía, os versos tornaram-se murmúrios de desanimo e aleluias do coração. Contavam desgraças e felicidades da vida. Coisas corriqueiras, mas que esbanjavam lirismo e talento. Não se fazia amor daquela maneira, não se escreviam textos daquela forma. Marisa era a própria irreverencia, e talvez essa seja a sua marca. Quem vive a poesia não entende o amor, mas desfruta a felicidade das suas raízes tristes.
Pobre Marisa Rica.
Odiava as pessoas, mas as achava irresistíveis. Bebia muito bem e amava muito mal. Continuou trabalhando no cerne do afeto, nas diferentes polaridades de vida, tanto que tinha a ideia que a humanidade poderia ser melhor, se todos os brancos fossem mais negros e os negros mais brancos.
Cantavam em casa “Pra quê chorar se existe amor?”. Pois de tanto ouvi-los profetizar, acreditou. O amor tornou-se a esperança na felicidade. Viciou em amar, mais que em beber, mas que em fumar.
Carregando no colo a arte e o seu peso, Marisa repetia: Ama que serás feliz. E cria.
(Ravena Lamêgo)
Depois, quando chegou o inverno as coisas foram mais difíceis. Eu me desafiei à viver, e todas as vezes que tentei levantar questionamentos sobre essa tarefa terminei anestesiando o cérebro com um programa televisivo insuportável de dia domingo. Eu estava condicionada a viver todas as lembranças e a maldizer o seu nome e rua por não serem meus. Alguém que olhasse em meus olhos julgaria a minha dor como se olhasse com os meus olhos e a sentisse. Por isso seja o que for que me dissessem, esperavam de mim uma resposta ríspida e rápida, porque foram poucas vezes que obtiveram a minha atenção. Em verdade, afirmo é que depois que Pedro foi embora, eu perdi a minha razão. Não tinha mais paciência para pessoas e nem gosto para animais. Eu passei a não me dar bem à ninguém, porque ninguém era quem eu precisava que fosse. As pessoas sempre se aproximavam e no segundo texto que me inspiravam, partiam, dando muita inspiração para outros textos, sofridos. Por isso achei melhor que me afastasse de todas elas, e depois dessa decisão, percebi que não me fazem muita falta.
Alguém disse que o inferno é aqui mesmo, e eu sustento a ideia de que os homens são demônios disfarçados.
Um dia daquela depressão, eu percebi que o frio embaçava o vidro na janela, e eu vi através do borro, o meu rosto e alma desfigurados. Não entendia como para mim o amor apareceu com mãos de ferro e voz de trovão, lavando minha alma na imundice. Eu entregava-lhe muitas flores, as preferidas e amarelas, para colher cravos no final do dia. O seu sentimento escroto e a sua língua, que hora me chupava, hora me emudecia com desprezo, significavam a minha vida naquela época. O seu silencio ainda me apavora. Mas as putas também significam muito para os poetas.
(Ravena Lamêgo)